Eu estava pronta. Havia passado a tarde toda organizando minhas coisas, me preparando, fazendo e revendo minha lista de itens imprescindíveis - pois eu não funciono sem lista, sou atrapalhada demais para confiar tarefa tão importante ao meu cérebro... E mesmo com a lista tenho a capacidade de esquecer coisas importantes! Rs. Eu não queria surpresas, queria estar prevenida.
Eu estava pronta. E então pude relaxar...
Imersa nos meus pensamentos, resolvi deixa-los criar vida própria e sorri com minha curiosidade de onde eles me levariam. Só não esperava que chegassem num dos lugares mais obscuros de meu espírito, um lugar que evito visitar por me trazer um aperto no peito desnecessário, já que fatos do passado não mudam nunca – estão encerrados.
As decepções.
Lembrei-me de quando ralei o joelho por volta dos 4 aninhos justo no dia de um desfile infantil no qual eu orgulhosamente ia apresentar um vestido lindo que minha mãe fez, mas que agora eu me recusava a vestir com vergonha do machucado rosado.
Momentos de quando meu primeiro amor se recusou a receber minha devoção.
Minha primeira (de muitas, diga-se de passagem... Rs) nota vermelha.
Passei algum tempo nas inúmeras desculpas que meu pai dava para não passar tempo conosco. Depois fui foleando minha memória como num álbum de fotos, observando cenas de quando minha melhor amiga só pensava no namorado, um professor ridicularizando minha capacidade intelectual, minha colega de trabalho roubando minha ideia, de quando meu chefe predileto só demonstrou que gostava de mim quando fui embora. A pequena que não me desejou melhoras quando eu estava no hospital, alguém que não dividiu comigo o momento especial do casamento, pessoas que marcam e desmarcam compromissos como se eu estivesse à sua disposição. Uma amiga que me julgou preconceituosa, um amigo que eu amava que não teve a coragem de lutar por nossa amizade. Inúmeras falsidades. Tantas más intenções.
Quando esta viagem já estava insuportável demais, um segundo antes de pular do trem, me ocorreu algo verdadeiramente assustador. Na verdade três coisas.
Decepções são inevitáveis. Somos imperfeitos e a individualidade nos permite fazer escolhas. A necessidade de viver em sociedade cria laços que nos tornam sujeitos a interferências de outros. Seguir nossos próprios desejos é indispensável para atingir um pouco de felicidade, e, portanto, somos todos egoístas. Fiquei desesperada ao concluir que não existe muro alto e forte o suficiente para me proteger dessas decisões alheias que insistem em interferir nos meus sentimentos. Então como lidar com isso?
Decepções são desilusões, têm a ver com nossas expectativas e figuras daquilo que é o ideal para nós. Criamos mentalmente exemplos de amigo ideal, pai ideal, mãe ideal, irmão ideal, marido ideal. E quando alguém não age de acordo com isso, nos decepcionamos. É justo?
Cavando um pouco mais no mar de desilusões, fiquei mais apavorada quando percebi que algumas outras que também me magoaram profundamente estavam ligadas às minhas próprias falhas. Quando não por falta de atitude, por reações explosivas demais. Onde está meu equilíbrio? Ai... quantas pessoas eu já devo ter decepcionado... Esta constatação foi um tapa na cara.
Mas também um wake up call. Tantas vezes fiquei indignada com os outros, apontando a falta de consideração e respeito ao próximo, frustrada ao concluir que a cada dia o círculo de amigos diminui. E, no entanto, eu esquecia de olhar para mim mesma, não reavaliando o peso das minhas ações. Ou pelo menos não com a frequência que deveria. A autocrítica é um exercício doloroso, não é a toa que tantos fogem disso.
Mas é necessário. E decidi, assim mesmo, simplesmente num estalar de dedos, que a partir de então ficaria mais preocupada em buscar o melhor que eu possa ser, o “eu ideal”, ser a amiga-filha-mulher-mãe-cidadã que eu gostaria de ter, do que jogar meu tempo fora me sentindo indignada com os outros. Doa o que doer, a autocrítica será constante.
Quanto às magoas, encontrei algo que funciona para mim: sei que todos nós erramos, então é preciso ter tolerância, compreensão e paciência. Mas tudo tem limite. Estou delimitando as minhas fronteiras, separando aquilo que é aceitável e o que absolutamente não será tolerado, considerando os meus valores e crenças. Não aceito ser usada e a palavra família não torna as atitudes da mesma menos dolorosas ou com maior poder de perdão - aliás, muito pelo contrário: quando alguém da sua própria família te magoa, a cicatrização é muito mais demorada porque o corte é muito mais profundo. A reciprocidade é definitivamente essencial, embora não necessariamente em peso igual - o equilibrio é uma decisão pessoal, pois vc pode ligar 10 vezes por mês para alguém e ficar totalmente satisfeito em receber apenas um contato dele. É claro que isso não me protege das mágoas, mas ameniza a dor. Acima de tudo, me dá parâmetros para aceitar as decepções que eu mesma causei. E a pior parte ainda está por vir, pois desenhar as divisórias requer tanto cuidado e um autoconhecimento absurdamente apurado. Ainda estou no rascunho e meus defeitos são tantos que....
Uma batida na porta me arrancou de meus devaneios.
- Vc está pronta?
Pronta?
Não. Não mesmo.
Nossa, sis...q sintonia, não? Nossos posts abordando o mesmo assunto...É isso aí, autoconhecimento (e olho vivo) em 2011!
ResponderExcluirAmo-te!!!
Nossa Ná!!!!
ResponderExcluirAdorei teu texto! Todos nós, em algum momento, nos deparamos com essas reflexões! E é isso mesmo...ninguém está pronto, mas estamos no caminho! Só pelo fato de termos a oportunidade, já é um começo! E se caminharmos de mãos dadas, essa carga toda fica bem mais leve! ;) e estamos aí sempre! Caminhando, juntas...