PORQUE NA MAIORIA DAS VEZES SÓ APRENDEMOS DANDO CABEÇADA MESMO... RS

31 de agosto de 2010

AUTOMANIPULAÇÃO

É... como adoramos a automanipulação!

Quem nunca se entregou a alguém se convencendo de que “eu to vivo hoje, é preciso aproveitar, afinal, quem sabe do amanhã?” (e se arrependeu depois)? Ou tomou uma taça enorme de sorvete pensando que serão apenas 50 minutos a mais na esteira e “amanhã eu compenso, sem falta”? Ou extrapolou o orçamento com mais uma calça calculando que passará os próximos dois finais de semana em casa e “não saio nem que a cava tussa”? Os problemas não são o carpe diem e a compensação... Os problemas são: quem morreu no dia seguinte e quem alguma vez cumpriu as promessas?

Quando nascemos, a certeza é única: a morte. Mas viver um dia por vez, afirmo com segurança, é automanipulação. Quem vive cada dia como se fosse o último não se preocupa com as conseqüências, não poupa, e, pior do que fazer só o quer, quer fazer tudo o mais rápido possível. Beiraria a perfeição... se tudo isso fosse verossímil e se para isso não existissem alguns fatores que independem da nossa vontade. É manipular o senso de responsabilidade.

E viver compensando – manipulando - tudo é viver com culpa, com cobranças. E para quê? Não se manipule... seja realista! Você merece tudo aquilo que vc pode ter (cuidado para não entender essa frase com “tudo o que vc quer ter”). Penso que o equilíbrio é a chave para muitas coisas, e sou contra exageros. Sou contra fanatismo e absolutismo.

Se entregue, mas aos poucos, sem acabar com todo mistério logo de cara (e esteja mais preocupado em conhecer a pessoa do que com o que ela pensa de vc). Tome sorvete sem zerar o estoque da sorveteria. Compre a calça se ainda tiver espaço no armário. Viva: faça esporte para cuidar do coração – vc vai precisar dele hoje e amanhã; saia com os amigos – vc vai precisar deles hoje e amanhã. E viaje muito, pois vc vai querer histórias para contar.

Viver hoje,é construir o amanhã. Então por que destruí-lo?

Mas não se engane, quer dizer, não se manipule! Outros tipos de automanipulação estão por aí... Tem a automanipulação que, na minha opinião, é a do pior tipo: quando vc errou, sabe que errou, mas se convence – quer dizer, se manipula – de que não errou, não fez, não falou, não ouviu. Esse tipo aí interfere na vida dos outros. Chega um momento em que vc realmente começa a acreditar na sua mentira... ou melhor, na sua verdade. Muito perigoso. Admito: já fiz. Não só uma vez. Mas quando eu mesma nem sabia mais da verdade, decidi nunca mais brincar – manipular - com isso.

E tem a automanipulação dos sentimentos. Talvez eu seja a única pirada desse mundo (ou do universo? credo...), mas tudo que eu não quero, acontece, e tudo que eu quero, não acontece. Por exemplo: pego trânsito todos os dias e acho um tempo perdido. No dia em que estou só o pó e quero dormir um pouco... bugger! A avenida parece uma pista de corrida. Então, muito esperta que sou, quando estou com aquele sono danado, tento acreditar piamente de que “ah, que droga, não terá trânsito e não conseguirei descansar”. E para minha surpresa (ou nem tanto, já que é esse o objetivo)... trânsito! O problema é que nem sempre dá certo e eu fico maluca tentando manipular o que sinto para conseguir mudar os fatos (como se isso chegasse perto do possível e fizesse qualquer sentido).
Ou quando eu saio de casa e fico com a sensação de que deixei a luz ligada. Mesmo sabendo bem lá fundo que eu desliguei, passo o dia i-n-t-e-i-r-i-n-h-o reclamando da maldita da conta de luz que virá um a-b-s-u-r-d-o. Explico: por causa do meu jeito estabanado de ser (fazer tudo correndo sem processar o que fez), tento manipular o sentimento de segurança (desliguei a luz) em insegurança (será que desliguei) para evitar de chegar em casa, me deparar com a luz acesa e constatar de que eu estava enganada no pior cenário (não desliguei a luz). Então prefiro estar enganada no melhor cenário (desliguei a luz). Deu pra entender ou isso já é um sinal de demência?

Enfim... percebi que sinceridade é um negócio enredado. Se já é difícil ser sincero consigo mesmo, imagina o ser com os outros... Fugimos da sinceridade e usamos da automanipulação porque somos cheios de defeitos e de vontades sem razões, e é mais fácil se convencer de outro ângulo (não passa de desculpa) e de motivos (no fim desnecessários), do que encarar a realidade e suas conseqüências.