PORQUE NA MAIORIA DAS VEZES SÓ APRENDEMOS DANDO CABEÇADA MESMO... RS

19 de abril de 2011

ATÉ QUE TEM GRAÇA

Não direi que amo fazer terapia. É doloroso. Tampouco vou generalizar propagandeando que todos deveriam fazer. Sou a favor de cada um descobrir o que é bom para si. Para mim, funciona. Veja bem... o meu relacionamento com a terapia é algo como amor e ódio. Eu detesto o processo, mas gosto do resultado. De graça nisso, só o trocadilho mesmo. Mas o melhor é quando vc começa a pegar o jeito da coisa. Por exemplo:

Numa das minhas crises de identidade (de tempos em tempos vivo momentos nos quais eu me questiono em tudo, analiso o que faço de errado, choro por me achar egoísta, me revolto por não ter pensado antes de agir e falar, me pergunto qual o sentido da vida... enfim, momento down total, não recomendo), resolvi me abrir pra valer com meu namorado-amigo-marido-amante. Claro que existe intimidade entre nós, mas normalmente eu tento poupá-lo da minha confusão mental, afinal ninguém merece ficar ouvindo lamentações dramáticas – exceto meu terapeuta, que é pago pra isso (Rs). Eu comecei a listar atitudes minhas que eu desaprovo, que me envergonham. Ao final de cada item, eu perguntava a ele “Por que eu sou assim? Da onde eu tirei isso?” (aposto que vc está começando a entender porque eu tento poupar meu parceiro dessas crises, né?). Quando fiz um intervalo para pegar fôlego, uma observação me arrancou do buraco negro no qual eu estava insistindo em me enfiar: “Todas essas coisas que vc está falando... Já reparou que são exatamente as mesmas que vc também reclama dos teus pais?” Puts...

Comecei a refletir sobre isso. Não no intuito de justificar meus defeitos, porque eu não sou (mais) do tipo que procura apontar o dedo, sei bem que sou dona dos meus atos e escolhas. Mas a pergunta dele me levou numa outra direção... Na terapia aprendi que toda família tem uma dinâmica de funcionamento. Sabe aquele tipo de círculo que briga, xinga e quebra coisas, mas depois chora, abraça e pede desculpas? É um tipo de dinâmica. Talvez vc conheça uma família na qual não importa o que o caçula faça nunca se pode criticá-lo. Ou onde as tradições se mantêm tão fortes que se aprende a repreender sentimentos. Enfim, cada uma tem a sua. Mas todos nós crescemos numa dinâmica e somos influenciados por ela de toda forma, positiva ou negativamente.

Considerando isso comecei a pensar no seguinte: e se alguns defeitos meus na verdade fossem ações automáticas provenientes da dinâmica da minha família? Então seriam estes realmente defeitos meus, no sentido de fazerem parte da minha personalidade, ou algo que me acostumei a ser no ambiente que cresci?

E foi nesse momento que me veio à cabeça uma palavra extraordinária: CARACTERÍSTICA.

Quais defeitos, e por que não qualidades, são características minhas, e quais são costumes (ações automáticas)?

Fiquei empolgadíssima com isso, pois faz muito sentido para mim! Quando eu falo que gostaria de manter de forma constante um processo de melhoria pessoal, é na verdade, uma análise autocrítica contínua. Muitas pessoas vão logo associando isso a tortura... Mas autocrítica é também autoconhecimento, que, por sua vez, nos dá a oportunidade de reconhecer tudo aquilo que nós temos de bom! Melhor ainda, quando temos a possibilidade de enxergar o que é da sua personalidade e o que vc acabou adquirindo através do ambiente em que vive. Ser alegre e atrapalhada é uma característica minha. Dar desculpas procurando justificar meus erros, no entanto, é atitude copiada e impensada, é um vicio - quando comecei a questionar "por quê faço isso?" percebi que isso não combina comigo de forma alguma. Vai contra os meus princípios, aqueles que eu escolhi ter.

Mas antes de vc começar a se aventurar na sua dinâmica familiar, procurando as influências e origens de quem vc é hoje, considere um aviso de quem já esteve lá: é impossível separar o joio do trigo. Não existe uma diferença clara entre o que é sua característica (sem interferências externas) e aquilo que te ensinaram como certo. Vale lembrar aqui, que a família repassa valores e princípios na intenção de te influenciar positivamente, com muito amor, querendo acertar e não errar – não convém tratar agora das exceções, embora estas certamente, e infelizmente, existam. Tentar distinguir desta forma é como tentar responder à pergunta de quem veio primeiro: o ovo ou a galinha? O que vc é hoje é uma salada, essa é que é a verdade. Possível é apenas identificar quais ingredientes vc gosta e quais prefere descartar. Olha a graça: e enquanto faz isso, observe se tem algum ingrediente bom oriundo da dinâmica da sua família que talvez não esteja nessa salada – quem sabe vale a pena inclui-lo? A gente nunca pode focar só no podre, não é mesmo?