Eu estava viajando com meu namorado-amigo-marido-amante, quando tocou uma música que adoro desde a minha adolescência. Observando a paisagem hora verde hora tomada de anúncios que nos acompanhava ao lado da rodovia, comecei a vagar nas histórias que vivi quando “encontrei” essa música...
Eu tinha 13 ou 14 anos, acabava de descobrir a existência do rock e da minha paixão por aprender outros idiomas, e não demorou muito para o círculo de amigos mudar também, tornando-me, por assim dizer, um pouco rebelde (mãe, nem vem falar que eu fui muito rebelde, pois nem cheguei perto de drugs & rock ‘n roll como muitos outros). Talvez a palavra desobediente seja mais adequada aqui. Logo depois tive meu primeiro namorado, alguns vários “ficantes”, outro namorado, outras atitudes (não necessariamente mais tranqüilas)...
Fui boiando um pouco sobre o mar de lembranças e me ocorreu o quanto eu havia mudado desde os 13 anos, e fiquei surpresa ao perceber que algumas coisas não mudam: como eu ainda gostar daquela mesma música, sem nunca ter me enjoado dela.
Os anos se passam, a lista de músicas favoritas está sempre variando, mas umas três ou quatro sempre estão lá.
Acho isso particularmente engraçado, porque recentemente ando tendo provas concretas e irrefutáveis de que é mais fácil amarmos uma música durante a vida toda, do que amarmos uma pessoa até nosso último suspiro. Simplesmente porque o ser humano está constantemente mudando, às vezes evoluindo, às vezes retrocedendo. Mas a música continua a mesma. Sua melodia te leva muitas vezes sempre para o mesmo lugar.
Por isso eu realmente acho encantador e maravilhoso um casal que se ama e que envelhece junto. Para tanto devem ter sido capazes de no mínimo terem evoluído juntos ou retrocedido juntos, nesse ponto vale qualquer um! E acima de qualquer outra coisa, de manterem suas essências. Pelo menos eu, quando me apaixono seja por um namorado, seja por um amigo (sim, sou apaixonada por meus amigos), é a essência da pessoa que me seduz.
Sendo eu alguém que, nos últimos tempos, tem estado em um processo transitório mais intenso, tenho a oportunidade de reconhecer que se meu namorado-amigo-marido-amante continua ao meu lado, só pode ser por eu ainda ter a essência que ele ama. Pois praticamente todo o resto em mim está mudando. O vice-versa também é verdadeiro.
Às vezes a essência acaba sendo alterada mesmo, e o problema é que nem sempre isso é tão claramente perceptível, por a essência em si ser algo tão sutil em meio aos defeitos e qualidades. Admitir que o outro não é mais “aquela” pessoa, que provavelmente essa mudança foi obra da vida e que não tem mesmo um culpado, talvez seja uma das causas que tornam o rompimento de um relacionamento tão difícil de ser encarado.
Quando a música acabou, deixou no ar uma breve sensação de nostalgia. Mas logo veio a próxima, tão simples como virar a página de um livro...